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Nas mãos de Alex Neoral, música, cinema e pintura viram dança: 'Inquieto' 

Bailarino e coreógrafo Alex Neoral (Foto: Marcio Monteiro) Bailarino e coreógrafo Alex Neoral (Foto: Marcio Monteiro)

Bailarino e coreógrafo Alex Neoral (Foto: Marcio Monteiro)

Coreógrafo, bailarino e inquieto. É desse jeito que o carioca Alex Neoral se define. Seja na Sapucaí ou nos palcos dos teatros, ele vem estreando espetáculos que provocam grandes emoções no público, como a peça “As canções que você dançou pra mim”, inspirada nas músicas de Roberto Carlos. A peça é carro-chefe da Focus Cia. e está há sete anos em cartaz. Neoral já foi considerado uma promessa da dança nacional. Aos 38 anos, ele leva suas coreografias para fora do país e, em entrevista ao G1, diz que hoje tem liberdade para criar e mesclar diversas artes por meio da dança.

Neoral começou seus estudos de dança na cidade do Rio de Janeiro, aos 16 anos. Como bailarino, atuou nas renomadas companhias de dança Deborah Colker, Nós da Dança, de Regina Sauer e Cia Vacilou Dançou, de Carlota Portella. Descobriu, aos poucos, seu talento como coreógrafo. Em 1997, criou a Focus Cia. de Dança, que se firmou no mercado mesmo em 2007.

No comando da companhia, ele conta que muitos convites surgiram para musicais como Rock in Rio e Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz. Há mais de 10 anos, é coreógrafo de comissão de frente de escolas de samba do Rio de Janeiro e, recentemente, montou as coreografias para o show de Fernanda Abreu. Como professor de dança contemporânea, ministrou aulas em Washington DC e na Itália.

No teatro, a Cia Focus exibe grandes espetáculos e vive um dos melhores momentos. Sucesso de público e de crítica, o “As canções que você dançou pra mim” já contabiliza quase 300 apresentações e será levada para fora do país. Neste ano, Neoral espera ter Roberto Carlos na plateia pela primeira vez. Ele ainda vai ministrar cursos, remontar peças e criar novos projetos com a ideia de levar a arte da dança para as ruas do Brasil.

Alex Neoral durante a peça 'Canções que você dançou pra mim' (Foto: Marian Starosta) Alex Neoral durante a peça 'Canções que você dançou pra mim' (Foto: Marian Starosta)

Alex Neoral durante a peça ‘Canções que você dançou pra mim’ (Foto: Marian Starosta)

Confira a entrevista completa

G1: Após o retorno da Cia. Focus, em 2007, você conseguiu se destacar em nível nacional como coreógrafo. Como foi isso?
Alex Neoral: Eu priorizei assumir a carreira de coreógrafo. Na outra, eu era um bailarino coreógrafo. Agora, eu sou um coreógrafo que dança nos meus próprios trabalhos. O investimento é muito maior no lado como coreógrafo, já que danço as minhas próprias obras.

G1: O espetáculo “As canções que você dançou para mim” já está há mais seis anos em cartaz. Estreou em 2011 e é o carro chefe da companhia. Como manter um espetáculo de dança tanto tempo nos palcos?
Alex Neoral: É muito surpreendente esse sucesso, esse alcance. Foi uma montagem despretensiosa. Eu não esperava esse sucesso todo. A ideia do espetáculo surgiu da ideia da trilha. É um pot-pourri, que vai juntando várias músicas dele, são 72 músicas. Uma música vai entrando na outra a partir de uma palavra em comum, isso vira uma brincadeira. A partir da trilha dele, fui construindo todo esse universo do espetáculo que virou uma grande homenagem. Os figurinos, que são azul e branco, são usados por quatro casais. Estamos dançando esse amor de homem e mulher, mas que pega de carona também nos outros amores que o Roberto canta, o amor de amigo, amor de mãe e filho (Lady Laura), outros tipos de amores. O interessante é que nas pesquisas eu fui vendo que o Roberto é o ‘Rei’ por isso. Ele atravessa gerações e hoje crianças estão podendo conhecer as músicas dele por meio do espetáculo. A trilha é feita com músicas dos anos 60, 70, 80 e 90. Cada casal representa no seu figurino cada década. Você consegue viajar no tempo, na memória.

G1: Falar de Roberto Carlos é um desafio. Qual foi o diferencial desse espetáculo nesse sentido?
Alex Neoral: Ele foi um desafio porque estou tratando de algo muito presente na memória das pessoas, na cultura brasileira. O que tem mais para ser original e tratar de Roberto Carlos? Eu acho que o diferencial é a trilha, que tem um peso grande, mas a construção toda do espetáculo, como a gente traduz as músicas em dança. Não é uma legenda para a música, para a letra. As cenas de interação com a plateia você consegue perceber quanto emocionado o público fica, o quanto ele se identifica. Eu vejo que emociona, as pessoas querem voltar. Não é só por causa da música, mas a junção da música com a dança e como o espetáculo foi construído. Ele tem 72 músicas, é uma mistura de emoções. É um espetáculo que fala de amor, que é atemporal, imortal.

G1: E o Roberto Carlos já viu o espetáculo?
Alex Neoral: Ainda não. Vamos ver se na apresentação de número 300, vamos tentar fazer no Rio e vamos convidá-lo. Acho que no segundo semestre. Depois de Santos, vamos para o México, Costa Rica, Bolívia. Temos agenda fora do país e aqui também. Seria uma honra ele poder ver o espetáculo.

Coreógrafo (ao centro) e o elenco do espetáculo 'As canções que você dançou pra mim' (Foto: Divulgação/Focus Cia. de Dança) Coreógrafo (ao centro) e o elenco do espetáculo 'As canções que você dançou pra mim' (Foto: Divulgação/Focus Cia. de Dança)

Coreógrafo (ao centro) e o elenco do espetáculo ‘As canções que você dançou pra mim’ (Foto: Divulgação/Focus Cia. de Dança)

G1: Além desse, há outros espetáculos da companhia que também tem feito sucesso?
Alex Neoral: Depois das ‘Canções’, temos mais espetáculos grandes. O ‘Dente de Leite’ que fala sobre o mundo da boca, as funções da boca. Depois veio ‘Saudade de Mim’, em que misturei as canções de Chico Buarque com as telas de Portinari. Emociona tanto quanto o Roberto, mas é outro tipo de emoção, a paixão do Chico é diferente do Roberto Carlos. E depois teve ‘Cinequanon’, que mergulha no universo do cinema. Talvez esses espetáculos todos cheguem na memória do público. Eles comunicam, as pessoas conseguem se identificar, elas se vêem ali de alguma forma.

G1: Nos seus espetáculos, você une diversas artes de uma forma diferente. São sempre temas muito populares, conhecidos. Acredita que isso ajuda a cativar o público?
Alex Neoral: Causa interesse e não são temas propositais. Em nenhum momento eu pensei em fazer um espetáculo do Roberto porque vou ter casa cheia, isso não é garantia de nada. Se for assim, eu vou assistir a um show dele. Falando em mistura, no ‘Saudade de Mim’, em que eu misturo Chico Buarque e Portinari, as pessoas falam que não tem nada a ver, mas é justamente isso que eu quero, uma mistura híbrida para causar alguma coisa. É uma ideia de ter algo novo a partir de algo que já existe.

G1: Neste ano, haverá novos espetáculos? Quais os planos?
Alex Neoral: A gente vai estrear um espetáculo de rua, no fim de março, em Belo Horizonte. É uma ideia de tirar a dança de um lugar convencional e levar para a rua, para qualquer lugar, praças, ruas, parques. É uma ideia de um trabalho que não tem uma frente, todo mundo ao redor pode ver, tem interferência sonora de carros, ônibus. É Levar a arte onde o povo está. Esse trabalho se chama Trupe, é a ideia de um coletivo que leva a arte. A coreografia começa em um lugar e tem a ideia de um cortejo, que pode levar para um lugar ou apenas surpreender no meio do caminho. É um pouco do ser artista. E também vamos estar fazendo o “Canções”, remontando o ‘Três Pontos’, o ‘Saudade de Mim’, ‘Cinequanon’. Vou para o Festival de Joinville ser júri, dar cursos e montar coreografias para outras companhias.

G1: Como o Alex se define hoje?
Alex Neoral: Eu acredito que eu seja um artista bem inquieto, sempre olhando o mundo de outra forma, no sentido de alimentar a minha arte. Olhar o mundo para transformar em arte. Uma cena corriqueira, eu consigo enxergar e transformar em arte. Eu ouço uma música e já penso em uma coreografia. O trabalho, para mim, é muito prazeroso porque ele está em todo o instante para mim.

Estou sempre em busca de me desafiar, de não me repetir. Eu fico muito feliz de estar propondo esses novos desafios para mim e, consequentemente, para os meus bailarinos. Acho que todas as manifestações artistas, cinema, teatro, museus, tudo me influencia nas minhas obras como inspiração, como modo de fazer, para eu transformar em dança.

A gente tem um patrocínio e isso dá uma tranquilidade, nesse sentido de me motivar, fomentar para que eu continue. Na arte, a gente já tem a insegurança, principalmente na dança, por conta de não saber quando será o fim da carreira. Tem que amar muito. Tem que ser muito apaixonado para abrir mão da segurança e viver essa paixão que é a dança. Eu não me arrependo nada e me sinto privilegiado.

Alex com o elenco de "As canções que você dançou pra mim" (Foto: Divulgação/Focus Cia.) Alex com o elenco de "As canções que você dançou pra mim" (Foto: Divulgação/Focus Cia.)

Alex com o elenco de “As canções que você dançou pra mim” (Foto: Divulgação/Focus Cia.)


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