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Irmã diz que Matheusa se 'doava muito às pessoas e prezava a escuta'

Matheusa: ela foi selecionada para curso no Parque Lage – Lucas Affonso / Reprodução/Instagram Agência Squad

RIO — Filha de um despachante de ônibus e de uma frentista, Matheusa Passareli só esperou completar o ensino médio em escola pública de Rio Bonito, no interior do estado, para, em 2015, desembarcar na capital fluminense e cursar artes visuais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Ao sair da cidade natal, seguia os mesmos passos da irmã Gabe, no Rio desde 2013 para cursar terapia ocupacional na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A história de luta, de uma jovem engajada em temas voltados para pessoas carentes, negras e LGBTs, foi interrompida na semana passada: ao sair de uma festa na casa de amigos, na madrugada do dia 29 de abril, Matheusa acabou tendo um surto e, segundo a polícia, foi morta em favela carioca.

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O corpo de Matheusa – que nasceu Matheus, mas entendia que sua identidade de gênero não é nem de homem nem de mulher, e, sim, de uma pessoa – ainda está desaparecido. Mas, em entrevista ao “RJ TV”, a delegada Ellen Souto, da Delegacia de Paradeiros, disse que a jovem foi vista tirando as roupas e falando frases desconexas, ao deixar a festa na Rua Cruz e Souza, no Encantado. Ela chegou ao Morro do Dezoito, em Piedade, a dois quilômetros de distância, onde teria passado por um tribunal montado por traficantes.

Segundo a delegada, “ele foi levado aos traficantes para tentar explicar ali o porquê da situação e não conseguiu se defender ao ponto de ser liberado. E o mataram sem qualquer justificativa. Ele foi julgado, tentou se defender, mas, segundo moradores, ele continuava falando as frases desconexas. Ele não tinha consciência de que ele estava passando por um ‘tribunal’ e, por essa razão, foi morto”.

Em entrevista ao GLOBO, Gabe, que também é não-binário, contou que ele a família estão em Rio Bonito, aguardando as investigações. Sobre a irmã, só tem palavras de afeto:

– Minha irmã era uma pessoa muito querida, doava muito às pessoas e prezava a escuta. É o resultado de um processo de vida de muito amor.

Matheus e Gabriel Passareli – Robinson Barbosa / Reprodução/Instagram Agência Squad

Estudar na universidade estadual sempre foi motivo de orgulho para Matheusa, que admirava a potência e a visão para a contemporaneidade do ensino de artes da instituição, que incentiva o ingresso de pessoas carentes, negras e LGBTs.

– Isso sempre tornou o movimento dela nesse espaço muito potente – diz Gabe, acrescentando que Matheusa participou foi o coletivo “Seus putos”, que, em 2016, participou de intervenções na cidade, como a limpeza das escadarias da Alerj.

Matheusa tinha formação em arte-educação pela Casa França-Brasil. Ao tomar gosto pela área, foi trabalhar no Museu do Amanhã como mediadora, uma experiência que ficou registrada em sua pesquisa sobre a “poética do corpo estranho”, na qual estudava a ocupação de seu corpo em determinados espaços da vida urbana. A estudante também participou, junto com professores da Uerj e de outras instituições, da elaboração da exposição “Orixás”, na Casa França-Brasil.

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Semanas antes do desaparecimento, Matheusa havia sido selecionada para um curso de artes visuais no Parque Lage. Seu portfólio foi escolhido entre outros 150. As aulas começaram após outro grande momento para a jovem. Em abril, ela e Gabe foram a São Paulo, a convite de uma agência, para a composição de um book de fotos para os desfiles da São Paulo Fashion Week. Na mesma viagem, foram convidadas para duas performances no SP-Arte, principal feira de artes da América Latina.

– Essa viagem foi algo extraordinário. Permitiu que estivéssemos em espaços muito potentes de arte – lembra Gabe.

A carreira de Matheusa sempre foi marcada pelo estudo.

– Eu me lembro que ela tinha um caderno nas mãos nos primeiros dias, dizendo que tinha estudado muito para entender e repassar seu conhecimento sobre as ‘meninas’ aos visitantes – conta Evelyn de Assis, sobre a experiência de trabalhar com Matheusa na exposição Meninas do Quarto 28, no Museu Histórico Nacional. – Ela simbolizava muita força, transmitia essa força.

* Estagiário sob supervisão de Ediane Merola

Matheus Passareli, de 21 anos, foi visto pela última vez em Piedade, na Zona Norte do Rio – Reprodução

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